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O rei traz a arca

"Eu sou o Deus Todo-Poderoso; anda na minha presença e sê perfeito" Gn 7:1

"Eu sou o Deus Todo-Poderoso; anda na minha presença e sê perfeito" Gn 7:1

CAPÍTULO 1

Eram trinta mil homens enfileirados debaixo de sol forte. Homens de batalha dentre os filhos de Israel. Trinta mil guerreiros. Homens adultos, fortes e decididos, aguerridos, prontos para qualquer batalha. Cara de leão. Armaduras, couraças, capacetes, cinturões e casacos de malhas. Paveses, escudos, dardos, lanças, espadas, arcos, clavas, machados e fundas. À pé, à cavalo ou sobre carroças. Estandartes, pavilhões, insígnias e bandeiras. Estrela de Davi. Acompanhavam o compasso estridente e ritmado dos tambores. Por vezes um coro de guerra fazia-se ecoar por aquela imensidão de montanhas. O som dos tambores, os passos de homens e cavalos, o barulho do atrito das rodas das carroças com o solo árido, o coro de guerra entoado em uníssono, todos estes elementos juntos retumbavam assombrosamente fazendo até os montes tremerem. Tantas outras vezes o som dos tambores dava lugar ao som de espadas contra escudos ou paveses, produzindo um som alarmante. E mais uma vez um coro de guerra aterrador. Era assim que o exército do rei Davi caminhava quando em missão de paz.

Juntaram-se como um só homem e foram para Baalá de Judá, para de lá levarem a arca da Aliança do SENHOR para Sião, a Cidade de Davi. Este era o intento do rei Davi naquela manhã.

Mas a arca da Aliança do SENHOR não poderia entrar de qualquer modo nas terras do rei: havia anos que ela estava em poder dos filisteus, além do mais, ela era o símbolo do próprio Deus de Israel habitando no meio do seu santo povo. O rei Davi sabia disto, e estas duas premissas martelavam-lhe a cabeça. Para o homem que amava ao SENHOR com amor extravagante, fazê-la entrar de maneira ordinária, como se faria com qualquer objeto seria falta de temor para com o Santo.

Naqueles dias, o rei Davi pensou no que fazer e, especialmente naquela manhã, ele estava atônito e cheio de alegria. Coração descompassado, olhos afoitos, respiração ofegante e poucas palavras. Todas as suas forças e toda a sua atenção estavam voltadas para uma única tarefa naquela manhã: trazer a arca da Aliança do SENHOR e introduzi-la no tabernáculo para tê-la perto de si.

Somente em seus sonhos e pensamentos ele a via. Seu pai Jessé contara-lhe várias vezes que o Deus que não se vê dera ordens ao legislador Moisés que construísse tal objeto e o cobrisse de ouro puro, tanto por dentro quanto por fora. Como lampejos coloridos à sua frente, ele imaginava o objeto sagrado que media um metro e onze centímetros de comprimento por sessenta e seis centímetros e seis milímetros de largura e altura. Ele podia vislumbrar sua cor áurea, sentir o cheiro da acácia e imaginar a alegria dos dois seres alados, os querubins, que, do alto do propiciatório, que era a tampa da arca, também de madeira de acácia e coberta de ouro puro, já haviam presenciado várias vezes a manifestação etérea do eterno Deus de Israel. Como que em cenas de um filme ele podia imaginar a bordadura de ouro puro ao redor da arca. Ele até mesmo sabia o cântico que deveria ser entoado quando os levitas enfiassem as varas de ouro por entre as quatro argolas de ouro, uma em cada ponta da arca, para que assim ela fosse carregada.

Seu pai certa vez contara-lhe que ninguém, nenhum ser humano poderia tocar diretamente na arca. A pena por tal delito seria a morte certeira, e só o mencionar desta notícia fazia os olhos do menino Davi dilatar-se. Seu pai sempre lhe ensinara que as ordens do Deus Eterno sempre eram precisas, nunca Ele deixava margem para dúvidas: somente levitas poderiam carregá-la, segurando-a pelas varas, não de qualquer jeito, mas sobre os seus ombros. Uma vez colocadas as varas, jamais poderiam ser retiradas, nem de dentro dela poderiam ser retiradas as tábuas da lei (representando a orientação de Deus), a vara de Arão que floresceu (representando a autoridade de Deus) e uma jarra contendo o maná que desceu dos céus (representando a providência diária de Deus). Estas eram as ordens explícitas do Deus que a tudo vê: “Eu sou o SENHOR que vos santifico, que vos tirei da terra do Egito, para ser o vosso Deus. Eu sou o SENHOR”. Este temor santo o menino Davi carregou dentro de si, desde quando pastoreava as ovelhas e, ainda adulto, o mesmo temor continuava eclodindo de dentro de si, feito larva ardente, pronta para consumir tudo ao redor.

O rei Davi sabia que a arca da Aliança do SENHOR representava o próprio SENHOR de seus pais aqui na Terra. Este era um objeto de valor inquestionável em momentos de decisão, de oração, de peleja, de adoração e de aflição. Por tudo isto nada podia dar errado. Tudo deveria estar no lugar certo, na hora certa para realizar a tarefa certa. A falta de cuidado, o relaxo ou um pouco de familiaridade levaria o Deus de seus pais a manifestar o Seu desagrado. Não que o Deus Santo fosse um deus amaldiçoador. O homem é que deveria sempre posicionar-se no seu lugar, reverenciando a este Deus Supremo com temor e tremor, e tendo cuidado exagerado com as Suas coisas.

Não era à-toa que o rei Davi mal podia conter-se naquela manhã. O Lugar Santíssimo, a parte mais sagrada do tabernáculo onde a arca deveria ser depositada, finalmente seria preenchido.

Era de lá, do Lugar Santíssimo, que o Deus de toda sabedoria deliberava suas leis. Suas palavras derradeiras bem como Sua decisão vinham de lá. Era de lá que a presença do Deus inconfundível se manifestava. Nestas horas de teofania todo o tabernáculo era preenchido com uma nuvem espessa capaz de assustar o mais intrépido dos homens. De tão espessa podia-se até tocá-la sem transpassá-la. Podia-se senti-la deslizando assombrosamente pela pele, levantando cada fio de cabelo. Seu toque era de uma textura indefinível e inigualável. Sua temperatura era como o de uma brisa estupendamente relaxante. O perfume que exalava de si era indefinidamente superior ao ungüento mais elaborado. Sua cor era de um branco etéreo, palidamente fosco. Após si restava somente a sensação de que o próprio Deus de tempos ancestrais havia passado por ali.

O menino Davi ouvira diversas vezes, nas manhãs em que pastoreava suas ovelhas, a história de Miriã e as mulheres que, cantaram e dançaram ao Deus Altíssimo logo após a estupenda e miraculosa vitória sobre os exércitos de Faraó. Quando o Deus Maravilhoso fendeu as águas do Mar Vermelho e ali mesmo enterrou os exércitos de Faraó, as mulheres lideradas por Miriã cantaram e dançaram algo bem rústico e simplificado. Mas isso era passado; o menino Davi tornara-se o grande rei Davi e ele elevaria aquele louvor rústico e simples à enésima potência. Sob a batuta do rei, o louvor ao Deus incorruptível passaria a ser organizado de maneira sistemática e incessante.

Para o ritual do louvor, roupas especiais de todos os tipos de tecidos e especialmente as de linho finíssimo seriam desenhadas. Um batalhão de alfaiates estaria encarregado da tarefa árdua de costurar cada peça, de encaixar cada retalho um no outro, para produzir o colorido desejado. Tintureiros aos montes estariam disponíveis para tingi-las com precisão cirúrgica. Ourives trabalhariam exaustivamente para produzir os mais belos, raros e preciosos apetrechos para decorar tais vestimentas. Duzentos e oito mestres haviam sido escolhidos dentre os melhores de Israel para organizar e treinar quatro mil israelitas no louvor ao Deus de seus pais.  Três famílias com seus descendentes estavam especialmente envolvidas nesta tarefa tão especial. Foram escolhidas as famílias de Asafe, Jedutum e Hemã.

O rei Davi amava ao seu Senhor mais do que a si próprio e não poupou esforços para erguer o tabernáculo e os serviços de louvor contínuo ao Deus de Israel, pois o rei sabia que a Sua misericórdia dura para sempre. Havia quatro mil porteiros e guardas para o santuário, fora os quatro mil para louvarem ao SENHOR entre salmistas e dirigentes de louvor, músicos e cantores, dançarinos com suas danças em grupo e danças proféticas, grandes corais, salmos e cânticos proféticos, espirituais, de louvor, de júbilo e de ações de graça.

As canções seriam cantadas e dançadas ao som de címbalos retumbantes, trombetas, tamborins, shofares, harpas, instrumentos de corda, alaúdes, adufes, tambores, buzinas, liras, pandeiros, flautas, pífaros, clarins, gaitas e cítaras. Um batalhão de artesãos havia sido designado para a incansável tarefa de fabricar e testar cada um dos milhares de instrumentos aqui citados. Todos deveriam estar perfeitamente afinados e posicionados no lugar certo para produzir o efeito desejado. Nenhum poderia estar adiante do outro, a sincronia deveria ser perfeita. O afinamento deveria estar preciso. Quando cada instrumento fosse tocado em solo ou em conjunto, a reverberação do som deveria subir aos céus.

E quantos ensaios não foram feitos? Quantas tardes e madrugadas de treinamentos? Quantas noites de sono perdido? Quantas manhãs de sono acumulado? Jovens, adultos e velhos estavam intimamente relacionados a esta árdua, porém compensadora tarefa.

O rei Davi sabia que o seu Deus, o Deus de seus pais, não falharia. Ele sabia que a glória do Deus Excelso seria manifesta mais uma vez por entre os querubins, logo acima da tampa da arca. Mas para isto, tudo deveria ser feito com muito esmero, com zelo total. Dedicação absoluta e uma disciplina exemplar seriam exigidas. E quem perseverasse até o fim veria a majestade do Deus Santo.

Era esse intento que movia o rei Davi para a frente. Os motores de propulsão que o forçavam não poderiam ser outros senão a fome e sede de agradar ao seu Senhor, mesmo que para isso ele tivesse de exigir que seus súditos beirassem os limites da exaustão. Mas ele sabia que todo esforço não seria em vão. O desânimo de alguns, a falta de fé de outros, as reclamações de algumas centenas e a fraqueza de uns milhares não poderia abalar o espírito do menino ruivo que havia derrotado um leão, um urso e um gigante filisteu sedento de carne israelita. O homem Davi sempre via primeiro a recompensa e depois colocava em prática a estratégia. Não havia espaço para vislumbrar a problemática da situação. Não que ele fosse irresponsável, mas cem por cento confiante no seu Deus.

Mas nem tudo seria alegria no coração do rei. Mesmo diante de tamanha ousadia, um fato encerraria as festividades, antes mesmo da entrada da arca pelos portões de Jerusalém.

CAPÍTULO 2

A festa estava preparada e a arca a caminho. Agora só faltava a carroça, onde depositaram a arca, entrar pelos muros de Jerusalém para dar-se início a cerimônia mais festiva de todo o reinado de Davi. A carroça era guiada por Uzá e Aio, filhos de Abinadabe.

Os dois filhos de Abinadabe, Uzá e Aiô, haviam crescido ao lado da arca. Eles sabiam que a arca representava o poder do Deus infalível em pessoa, mas o tempo fez com que ela lhes fosse familiar e aos poucos o temor pelas coisas santas ao SENHOR foi-se esvaindo, caindo no habitual.

Eles já sabiam da devastação que a arca da Aliança do SENHOR havia causado entre os filisteus, quando estes ousaram roubá-la de seu santo lugar para suas terras.

Quando os filhos de Israel ainda não tinham rei, saiu todo o exército de Israel a pelejar contra os filisteus. Houve quatro mil baixas israelitas. Numa última tentativa de vitória, depositaram toda a sua confiança na arca e, como se ela fosse um talismã da sorte,  os guerreiros pediram que a trouxessem de Siló para o campo de batalha. Assim foi feito e a arca ficou sob os cuidados de Hofni e Finéias, filhos de Eli, o sacerdote daquele tempo. Hofni e Finérias não se importavam com as coisas sagradas ao SENHOR, antes, os dois jovens roubavam do sacrifício que o povo oferecia. Neste mesmo dia, temeram os filisteus, pois a fama do poder da arca corria por todas as terras e todos os povos. Diziam os filisteus que os deuses haviam chegado ao campo de batalha e que isso jamais havia acontecido. Eles rogavam por alguém mais forte que os deuses, capaz de livrar todo o exército filisteu do poder dos deuses que haviam trazido toda aquela praga ao Egito e também na passagem de Israel pelo deserto. E creram os filisteus em si próprios e depositaram em si mesmos toda a sua confiança e o ânimo das tropas foi recobrado fortemente, para que fossem à luta contra os israelitas, que lutassem bravamente para que os filisteus não se tornassem escravos dos hebreus.

E a Filístia venceu. Houve trinta mil baixas israelitas. A arca foi levada como despojo de guerra e foram mortos os dois sacerdotes, os filhos de Eli.

Em terreno estrangeiro, a arca foi primeiro para a fortificada cidade de Asdode, no templo de Dagom, o deus da agricultura, metade homem e metade peixe. Lá a arca trouxe doenças e uma inexplicável e repentina infestação de ratos. Talvez fora por isso que, quando os amedrontados filisteus, devolveram a arca para os israelitas, enviaram junto cinco ratinhos de ouro como uma oferta expiatória pelo pecado. Os ratinhos de ouro representavam os ratos do campo que devastaram as colheitas oferecidas ao deus Dagom. Também, como oferta expiatória pelo pecado, fundiram como cinco tumores de ouro para os israelitas, representando as doenças causadas aos de Asdode.  Cinco ratinhos de ouro pelas cinco mais importantes cidades filistéias: Asdode, Gaza, Gate, Asquelom e Ecrom e cinco tumores pelos cinco príncipes de cada cidade.

Antes destes episódios, a manifestação do poder do Deus único se fez presente diante do deus Dagom. Numa manhã como tantas outras, quando o povo de Asdode levantou-se, viu, assombrado, a cabeça do seu deus cerrada e tombada no chão. De coração endurecidos, colocaram a cabeça da escultura de volta ao seu lugar. Com um exemplo de que o deus Dagom não passava de um pedaço de nada, o Deus único manifestou o seu desagrado eterno contra esta imagem esculpida para adoração, cerrando-lhe também os punhos. Nem cabeça nem mãos, restou somente o tronco vazio do grande deus Dagom e a perplexidade do povo que ainda experimentaria manifestações piores do poder do Deus único.

Depois das calamidades em Asdode, a arca foi encaminhada para Gate. A população desta importante cidade não foi poupada de sua falta de visão da grandiosidade e santidade que pairava sobre o objeto que estava em seu poder. Tanto pequenos quanto velhos foram feridos de tumores e o terror repentino e avassalador tomou conta da suntuosa Gate.

Da mais importante cidade filstéia, a arca foi levada para Ecrom. Lá, os adoradores de Baal-Zebube reagiram negativamente a esta nova aquisição, uma vez que a fama do terror da arca da Aliança do SENHOR a precedia velozmente.

Enfim, os filisteus haviam se rendido ao poder assustador que pairava sobre a arca. Sem entenderam, porém, que tratava-se de um objeto santo, digno de cuidados especiais, depositaram-na sobre uma carroça com as ofertas pela expiação do pecado, que ia sendo puxada por duas vacas. As vacas tomaram, milagrosamente, a direção de Bate-Semes em Israel. Gritando e berrando, as vacas seguiam sempre o mesmo caminho, sem se desviarem, como se guiadas por um ser invisível.

Sua parada foi somente na casa de um certo Josué. Ali mesmo, dado ao reconhecimento da santidade da arca, as vacas foram oferecidas em sacrifício ao SENHOR, o guia de Israel. Os levitas desceram a arca e a depositaram sobre uma grande pedra. Neste mesmo dia, os bate-semitas ofereceram holocaustos e imolaram sacrifícios ao SENHOR.

Porém a curiosidade profana dos bate-semitas serviram-lhe de laço. Por terem olhado para dentro da arca, setenta homens foram feridos mortalmente, o que levou o povo aos prantos diante do seu Deus. Arrependidos, a população rogou a Abinadabe que levasse a arca de Bate-Semes para Quiriate-Jearim.

Na Filístia, como um todo, sua permanência não foi superior a sete meses, e foi levada para Bate-Semes, dali partiu para Quiriate-Jearim, que é a mesma Baalá de Judá, onde ficou vinte anos sob os cuidados dos membros de uma mesma família: Abinadabe, Eleazar, Uzá e Aiô.

A família tutora da arca da Aliança do SENHOR cometera um erro atroz ao alojar a arca numa carroça. A ordem do Deus da Aliança com os homens era para que o objeto sempre fosse carregado sobre os ombros dos sacerdotes levitas. Para este propósito, duas varas foram gentilmente introduzidas nas argolas nos cantos da arca. Assim deveria ser carregada a arca da Aliança do SENHOR, de geração a geração.

Como se não bastasse tanta familiaridade com o objeto mais santo de todos os tempos, o jovem Uzá, carregado de uma verdadeira paixão sem temor, tocou na arca, para que esta não escorregasse, num instante em que a carroça quase tombava. Por esta falta de visão, o jovem Uzá caiu pálido e sem vida no chão.

O rei Davi, comovido e cheio de terror, não ousou continuar o seu intento, mas ordenou que deixassem a arca da Aliança do SENHOR na casa do levita Obede-Edom.

Estavam encerradas as festividades por ordem do rei.

CAPÍTULO 3

E o SENHOR em tudo prosperou a casa de Obede-Edom, por seu temor contínuo e sua reverência incessante diante da arca da Aliança de Deus com os homens.

A repentina fama de Obede-Edom correu os quatro cantos até chegar aos ouvidos do rei Davi que, claro, movido de temor e lembrando-se da unção que recebera do próprio Deus de seus pais, mais uma vez agiu com ousadia e, obstinado, ordenou que trouxessem a arca à Cidade de Davi.

O tom festivo retornou às terras do rei. Finalmente aquele emaranhado de famílias e compatriotas que havia tempo vinha sendo treinado para o louvor no tabernáculo, poderia apresentar-se em público pela primeira vez.

Porém desta vez, todo cuidado seria pouco na acomodação e transporte do objeto de tal inestimável valor.

E lá vinham os levitas carregando a arca nos ombros, em acordo com a legislação mosaica. Lá estavam os sacerdotes vestidos com as estolas sacerdotais. Os cavaleiros com seus pavês e escudos, suas insígnias, seus estandartes e suas bandeiras.

Ao som das canções já tantas vezes ensaiadas e da performance dos bailarinos a multidão acompanhava comovida. Deixando de lado sua posição real, o homem Davi coloca-se a serviço do louvor do Deus de seus pais.

O rei Davi, como qualquer um dos dançarinos, ao som dos adufes, dos címbalos, dos instrumentos de corda e de percussão, inicia o seu louvor incessante diante do seu Senhor. Como qualquer um dos dançarinos, ele se põe a serviço do louvor do Deus de Israel, seu povo. Este é o seu prazer: louvar ao seu Deus. Seja no campo de batalha, seja guiando suas ovelhas, seja administrando seu reinado, seja dançando como qualquer um do povo, o rei fazia de todo o seu coração e de toda a sua alma. Sua única vontade incessante era a de agradar ao seu Deus. Somente isto interessava ao rei.

E o rei dançava trajando sua estola sacerdotal, vestimenta vistosa feita de linho e fios de ouro, azul, púrpura, carmesim e branco. A estola sacerdotal era composta de duas partes, sem mangas, presas uma à outra nas ombreiras. Nas ombreiras havia duas pedras de ônix, gravadas com os nomes das tribos de Israel, seis em cada pedra, engastadas de ouro ao redor. A sobrepeliz, uma túnica de cor azul arroxeado, usada por baixo da estola sacerdotal, cuja orla tinha romãs feitas de estofo azul, púrpura e carmesim e pequenas campainhas de ouro entre elas, que soavam gentilmente aos movimentos do rei. Via-se ainda, na vestimenta do rei, o peitoral, uma peça quadrada medindo um palmo de cada lado, feito do mesmo material que a estola sacerdotal, e preso às ombreiras desta por correntes e argolas de ouro, que nunca podia-se se separar da estola. O peitoral tinha as doze pedras preciosas, cada uma esculpida como sinete com o nome de uma das tribos de Israel. Cada pedra com uma cor diferente, e juntas formando um conjunto de cores cintilantes. Em cima do peitoral havia uma abertura onde repousavam o Urim (luzes) e o Tumim (perfeições). Na cabeça do rei estava a tiara, um turbante de linho fino e a mitra, uma coroa de sete metros de pano enrolado, e via gravada nesta mitra as palavras SANTIDADE AO SENHOR.

Ao som dos cânticos e louvores retumbantes, dos címbalos e sons que percutiam poderosamente, lá iam os sacerdotes, o povo e o rei, todos louvando, cantando e dançando. Às vezes em uníssono, fazendo tremer as paredes de Jerusalém, outras vezes em vários corais, perfeitamente sincronizados, e outras tantas vezes somente ouvia-se o poderoso som das músicas instrumentais, que ressoavam de forma beligerante. As nuvens encobriam um sol pálido e o vento sibilava, fino, fraco, esguio, fazendo balançar suavemente as estolas e as vestes coloridas dos dançarinos.

E acontecia que, a cada seis passos, a comitiva sacrificava bois e carneiros cevados diante do SENHOR. O rei Davi ou sacrificava ou dançava com todas as suas forças. E o povo e os sacerdotes ao virem o entusiasmo do rei, faziam com muito mais afinco ainda a sua tarefa.

Quanto mais a música se desenvolvia num crescendo formidável sem comparações, tanto mais o rei se deixava envolver diante do seu Senhor.

E todo o povo cantava e dançava com júbilos e ações de graças diante do seu Deus, o Deus de seus pais, os profetas e patriarcas de Israel.

De lá do céu, o Deus de todas as alturas aprovava o intento do rei e de seus súditos, fazendo o povo se alegrar como nunca antes. O povo não havia testemunhado o mar se abrir, nem havia visto o Sol sendo detido, nem mesmo havia visto qualquer arbusto se queimar sem ser consumido. Eles não viram o Anjo de Deus em forma de uma coluna de fogo à noite ou uma tenda nas nuvens durante o dia, nem nunca o maná lhes havia sido entregue dos céus. O Sinai somente ardia e tremia em seus sonhos e pensamentos. E somente em seus sonhos e pensamentos é que a terra de Faraó era castigada para alívio dos escravos hebreus. Somente em suas histórias é que eles contemplavam a água sendo providenciada da rocha. Mas mesmo assim, parecia-lhes familiar a alegria que os seus pais, já há muito perecidos no deserto, havia experimentado. Um gozo indefinível transbordava no meio do povo e um a um, tanto pequenos, como jovens e velhos se deixavam inebriar por esta alegria.

Finalmente, a entrada de Jerusalém. Para trás, um rastro de sangue e cheiro de carne queimada.

De lá do alto, do palácio real, Mical, a esposa do rei, observava o seu senhor com olhar de reprovação. Sobrancelhas cerradas, lábios inchados e um olhar de desagrado. Seu coração estava cheio de malícia e palavras de desaprovação. Para ela tudo aquilo não passava de um grande teatro, uma encenação circense e o pior de tudo: tendo como bobo da corte o seu senhor e rei. Seu coração disparava de ansiedade para estar frente a frente com o rei para dizer-lhe suas palavras de reprovação quanto àquela ridícula manifestação de inferioridade e decadência. Assim que o rei entrasse por aquela porta, ela o colocaria em seu devido lugar! Quanto mais a cadência musical aumentava, mais irritada Mical se tornava. Nem as músicas, nem a perfeita coreografia dos dançarinos, nem os cânticos de ações de graça, nem o coro de aleluias, nada era capaz de agradar aquele coração inflado pela inveja e ciúmes, até o cheiro dos sacrifícios entupia-lhe as narinas e fazia-lhe sentir náuseas.

Nem bem o rei adentrou o palácio e Mical começou a disparar todo o conteúdo reprovatório do seu coração. As palavras eram sutis e secas, sem a menor visão do esplendor do que estava acontecendo. Vadio, foi esta a palavra menos agressiva com que ela tratou o seu senhor. E quanto mais Mical destilava sua indignação inconcebida, tanto mais ardia-lhe por dentro o desejo de transformar toda aquela glória em algo baixo, pequeno e vergonhoso.

O rei, do alto de sua majestade, com toda a sua benevolência não ousou levantar-lhe um dedo sequer. O seu senhor, humildimente, colocou-se numa posição ainda mais inferior mesmo diante de tamanha demonstração de falta de visão: “Ainda mais desprezível me farei e me humilharei aos meus olhos”. Conta a história que Mical não teve filhos, ela foi incapaz de dar àquilo de mais belo que poderia ser dado ao seu senhor. Aquilo pelo qual todo rei buscava afinal gerar filhos, especialmente muitos filhos era um dos sinais de aprovação de Deus.

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3 Respostas para “O rei traz a arca

  1. Grandíssimo Deus único e verdadeiro o todo de tudo, assim seja para todo sempre amem.
    E sei que Davi nunca foi esquecido por Deus, pois seu nome é citado em apocalipse por aquele que sai de detrás dos quatro querubins.

  2. Pingback: O que aconteceu com a arca da Aliança? «

  3. m.l. ANDREA OROZCO

    Realmente, ligue los dos sitios, el de Louvor matinal y este y me puse a tocar en la melodica, realmente unièndonos para alabar al Señor con todo nuestro corazón la palabra se nos graba con fuego en el corazón. Solo puedo decir Aleluÿah , y gracias al angel Informático , que me invitó a participar en la comunidad, se imaginan si todos enlazados con skype alabaramos al Señor con cada uno de nuestros instrumentos o voces, voy abrir un espacio exclusivamente para eso Aleluÿah para alabar al Señor

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