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A Praga by Luis Fernando Veríssimo

cristovao_colomboSempre gostei de pequenos contos e crônicas. Gosto de histórias que têm um final profético, onde todos os itens já falados são retomados no final, com um grand finale.

Você pode até não saber quem é Luis Fernando Veríssimo, ou quem foi Colombo, mas tenho certeza de que você entenderá a moral da história abaixo. É um dos melhores contos que eu já li.

A Praga

Outra praia, outro descobrir.

Um índio que até então nem sabia que era índio, estendeu a mão e ofereceu a Cristóvão Colombo um tomate.

– Um pomo d’oro – exclamou o almirante, confundindo o fruto que brilhava ao sol novo da América com uma maçã selvagem. Depois examinou o fruto mais de perto e perguntou: – Para que serve?

– Saladas – respondeu o índio – Refogados, molhos – continuou.

– Para o espaguete! – exclamou Colombo, compreendendo por que o destino o trouxera até ali. Lembrando que seu nono, em Gênova, vivia elogiando Marco Polo por ter trazido o espaguete do Oriente e sua nona dizendo que sim, o espaguete era bom, mas faltava alguma coisa. Sua missão estava revelada: numa só viagem superara o Marco Polo do nono e descobrira o que faltava na macarronada da nona. Ficou com o tomate.

– O que você me dá em troca? – quis saber o índio.

Não se sabe a língua que falavam. A linguagem mágica dos grandes encontros. Não interessa.

– Dou em troca um dos produtos supremo da nossa civilização, uma preciosidade. Um dos frutos da indústria que em breve chegará aqui e transformará este mato em outra Europa. – E Colombo deu uma miçanga ao índio.

Colombo perguntou que outra novidade o índio tinha para lhe dar. E o índio ofereceu uma batata.

– O que faremos com isso? – perguntou Colombo, olhando a feia batata com pouco entusiasmo.

O índio descreveu o futuro da batata, desde a sua importância na alimentação dos camponeses europeus em fomes ainda por vir até a noissete e as fritas. E Colombo botou a batata na algibeira e deu em troca uma moedinha de valor tão baixo que em vez da cara mostrava o joelho do rei.

O que mais o índio tinha para lhe dar?

O fruto do cacaueiro de onde sairia o chocolate. O índio descreveu o significado do chocolate para a história do mundo, especialmente na Suiça e na Bahia; e como seriam os bombons e as barras recheadas com avelãs e, suspeita-se que tenha mencionada até a musse. E Colombo trocou o cacau por um espelhinho.

Que mais?

Fumo! Em breve todos estariam experimentando as delícias do tabaco e o novo hábito dominaria o mundo. E, para quem quisesse um barato ainda maior, o índio incluía a planta da coca junto com a planta do fumo em troca das contas que Colombo lhe oferecia.

Que mais?

Milho, aipim, um papagaio…

– E isso que você tem no nariz? – perguntou Colombo, apontando para a argola de ouro.

– O que você dá em troca?

Colombo ofereceu miçangas, que o índio não quis. Outra moedinha. Comprimidos. Vale-transporte. Finalmente apontou sua pistola para a cabeça do índio e disse: – Isso! – E disparou. Depois deu ordens a seus homens para recolher todo o ouro à vista, mesmo que tivesse que trazer os narizes juntos.

Do chão, antes de morrer, o índio amaldiçoou Colombo e praguejou:

– Que a batata tornasse a sua raça obesa, que o chocolate enchesse as suas artérias de colesterol, que o fumo lhe desse câncer, que a cocaína o enlouquecesse e que o ouro destruísse a sua alma. E que o tomate – pediu o índio aos céus, com seu último suspiro – se transformasse em ketchup; e molho enlatado sem graça que estragasse o espaguete para todo o sempre.

E assim aconteceu.

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