Café jacu: direto das fezes de um pássaro

09/04/2009 — 10h38
Jacu coffee chega em Londrina a R$ 10 a xícara

 

Produto é inspirado no café mais caro do mundo (R$ 25 a xícara, em São Paulo), o kopi luwak, da Indonésia, cujos grãos são comidos por um felino
Dorico da Silva/Equipe Folha

 

Produção vai para o mercado externo e uma pequena parte é vendida no Brasil; em Londrina, o café só é servido na forma de espresso
Dorico da Silva/Equipe Folha

 

Brígida, Malamud e Bacceti experimentam o café: qualidade boa e sabor único

O café-jacu, ou jacu bird coffee, chegou a Londrina, no Paraná. O produto, que vem do Espírito Santo e está ganhando o mundo, tem como principal característica o fato de passar pelo intestino do jacu antes de chegar ao terreiro. A ave come o fruto maduro e defeca os grãos inteiros, que depois são processados para chegar ao consumidor. Na cidade, o café só é servido na forma de espresso: R$ 10 a xícara. Se fosse para levar para a casa, a embalagem de 250 gramas (em grãos torrados) sairia muito caro, já que o custo para o comerciante está em torno de R$ 40.

O produto é inspirado no café mais caro do mundo (R$ 25 a xícara, em São Paulo), o kopi luwak, da Indonésia, cujos grãos são comidos por um felino. No caso do jacu, praticamente toda a produção vai para o mercado externo (Tóquio, Londres e Costa Oeste dos Estados Unidos) e uma pequena parte é vendida no Brasil, principalmente nas capitais.

A praga virou benção’, diz produtor

A re­por­ta­gem con­fes­sa que es­tra­nhou ao sa­ber que ­iria ex­pe­ri­men­tar o ca­fé-ja­cu, mas en­ca­rou com na­tu­ra­li­da­de ao ler so­bre o as­sun­to an­tes de be­ber. É um ca­fé mui­to bom, que dei­xa um gos­to de fru­ta na bo­ca. Se va­le R$ 10 a xí­ca­ra é ou­tra his­tó­ria… As ra­zões pa­ra o pre­ço, po­rém, fi­cam ­mais cla­ras ao ou­vir­mos as ex­pli­ca­ções do pro­du­tor Hen­ri­que Slo­per, um ca­rio­ca for­ma­do em mar­ke­ting na Ca­li­fór­nia, e pro­prie­tá­rio da Fa­zen­da Ca­mo­cim, no Es­pí­ri­to San­to, de on­de sai o exó­ti­co ca­fé. Con­fi­ra al­guns tre­chos da en­tre­vis­ta.

Co­mo sur­giu a ­idéia do ca­fé-ja­cu?

Pri­mei­ro gos­ta­ria de di­zer que es­te é um fe­nô­me­no na­tu­ral, só cria­mos a tec­no­lo­gia. An­tes, que­ria me li­vrar dos ja­cus, ­pois os via co­mo pra­gas na mi­nha la­vou­ra. Eu já co­nhe­cia o ko­pi lu­wak (ca­fé da In­do­né­sia, que pas­sa pe­lo pro­ces­so di­ges­ti­vo de um fe­li­no). Foi num dia fa­tí­di­co, quan­do vi­mos uns 80 ja­cus de­vo­ran­do os ca­fe­zais, que ­caiu a fi­cha. Aí a pra­ga vi­rou ben­ção.

E co­mo é o pro­ces­so?

O ja­cu pe­ga o ­grão no pé, sen­ta per­to do ca­fe­zal e vai co­men­do os fru­tos ma­du­ros até en­cher. É um es­pe­tá­cu­lo es­tra­nho. O ja­cu é uma mis­tu­ra de uru­bu com ga­li­nha, faz um ba­ru­lho as­sus­ta­dor. Ele não tem es­tô­ma­go, é só pa­po e in­tes­ti­no. E o que ele ­quer é só a par­te mo­le da fru­ta. Em 30 a 40 mi­nu­tos ele de­fe­ca.

Vo­cês co­lhem as fe­zes e a par­tir daí o que acon­te­ce?

Aí en­tra o nos­so pro­ces­so tec­no­ló­gi­co (que não re­ve­la em de­ta­lhes). O mun­do tem vá­rios ca­fés exó­ti­cos. O se­gre­do nos­so foi ter des­co­ber­to uma tec­no­lo­gia pró­pria. Co­lher co­cô de pás­sa­ro é fá­cil. Trans­for­mar aqui­lo em be­bi­da boa é que é a ques­tão. Já re­gis­tra­mos a mar­ca ja­cu-cof­fee no mun­do in­tei­ro e o nos­so pro­je­to é trans­for­mar is­so em te­sou­ro na­cio­nal bra­si­lei­ro.

E o que ­atrai tan­to os ja­cus pa­ra a fa­zen­da?

São ­três fa­to­res: o sis­te­ma de pro­du­ção flo­res­tal (flo­res­ta com agri­cul­tu­ra), a la­vou­ra or­gâ­ni­ca e bio­di­nâ­mi­ca (sem uti­li­za­ção de pro­du­tos quí­mi­cos), e o mi­cro­cli­ma da fa­zen­da (re­gião de mon­ta­nha, si­len­cio­sa). O ja­cu é sen­sí­vel e não gos­ta de ba­ru­lho.

Por que o ca­fé é tão ca­ro?

Por cau­sa do cus­to de pro­du­ção. Na úl­ti­ma sa­fra co­lhe­mos 70 to­ne­la­das de ca­fé na fa­zen­da, sen­do que me­nos de uma to­ne­la­da foi de ca­fé ja­cu. No fi­nal do pro­ces­so, is­so vai ge­rar uns 500 qui­los ape­nas. É me­nos de 1% da pro­du­ção.

Na ho­ra de be­ber, ­qual a prin­ci­pal di­fe­ren­ça do ca­fé-ja­cu?

Na bo­ca, não sa­be­mos di­zer qui­mi­ca­men­te o que mu­da por­que is­so ain­da es­tá em pro­ces­so de pes­qui­sa. Em re­la­ção ao ou­tro ti­po de ca­fé que pro­du­zi­mos na fa­zen­da, o ja­cu pas­sa por uma se­le­ção na­tu­ral, fei­ta pe­lo pró­prio pás­sa­ro. Ele só co­me os ­grãos ­bons, do mes­mo ta­ma­nho e ma­du­ros, que têm ­teor de açú­car ­mais al­to. O ja­cu sa­be o que faz.

Vo­cê po­de di­zer por quan­to ven­de o ja­cu-cof­fee no ex­te­rior?

De jei­to ne­nhum. Mas pos­so ga­ran­tir que o pre­ço é bem ­mais al­to do que den­tro do Bra­sil (cer­ca de R$ 40 o pa­co­te de 250 gr de ca­fé em ­grão). E não te­nho pro­du­ção pa­ra aten­der a de­man­da. Pa­ra fo­ra, o ca­fé vai em­ba­la­do a vá­cuo, em cai­xas de cin­co qui­los, em ­grãos ver­des. ­Eles pre­fe­rem as­sim por­que di­zem que o ca­fé tor­ra­do de­pois de 15 ­dias já era…

O café é produzido desde 2006, mas tornou-se conhecido em território nacional depois da divulgação na mídia em setembro do ano passado. Desde então, a comerciante Cristina Maulaz está tentando trazê-lo para Londrina, mas só conseguiu fechar o negócio agora porque faltava produto para atender a demanda. A novidade começou a ser servida nesta semana.

”Estou ligando para as pessoas virem conhecer. Comprei em pequena quantidade para sentir o mercado. Quem aprecia café está gostando. Na verdade, é uma iguaria, uma bebida fina”, diz Cristina, da loja O Armazém. A convite da Folha de Londrina, dois especialistas no assunto estiveram no local para uma degustação. Eles tomaram a bebida sem açúcar, do jeito que se prova os chamados cafés especiais.

Afinal, o tal café que vem nas fezes do jacu é bom? ”Muito bom. Harmonioso, equilibrado e tem uma acidez desejada. Deixa um sabor residual muito agradável na boca. Lembra fruto maduro, adocicado. Está vendo esse creme que fica na xícara depois que acaba? É sinal de qualidade. Enfim, é um café maravilhoso, para degustar como se estivesse tomando uma raridade”, descreve Marcos Aurélio Bacceti, produtor, corretor e degustador de café para fins comerciais e de pesquisa. Ele já havia experimentado a bebida em São Paulo.

A bioquímica Maria Brígida Scholz, pesquisadora de café do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), tomou o café-jacu pela primeira vez e também aprovou. ”Esperava que fosse um bom café. E realmente é. É muito doce, com acidez aceitável, bem agradável. O ponto de torra é suave, muito aromático”, afirma ela, que também é degustadora oficial de café. Segunda Brígida, trata-se de um café super selecionado, já que o jacu escolheu no cafeeiro os frutos bons e bem maduros. ”O pássaro é atraído pelo doce do café”.

Tanto Bacceti quanto Brígida observaram que, independente do processo no sistema digestivo do pássaro, a qualidade do café já é muito boa. É cultivado em uma região de montanhas e certificado como orgânico e biodinâmico. ”Vale lembrar que o Brasil sempre produziu um excelente café, mas não falávamos dessa qualidade. O Paraná, por exemplo, tem café excepcional”, observa Bacceti.

O empresário Daniel Malamud, que também participou da degustação, achou que a bebida tem ”sabor único, diferente”. ”É bem equilibrado, com uma acidez boa. Você sente aquele amarguinho só no final, mas depois some da boca”, diz.

Depois de algum tempo na mesa ao lado, na cafeteria, ouvindo as conversas sobre o ”jacu”, o médico Roberto Tino e a esposa Denise Tino, professora, tomaram coragem e pediram a bebida. ”Tirando a excentricidade, é um bom café. Não é só uma boa jogada de marketing”, disse ele. ”Fiquei meio receosa de tomar, mas gostei”, afirmou ela, a única pessoa entrevistada que assumiu o estranhamento de experimentar a bebida.

Gisele Mendonça – Folha de Londrina
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5 Respostas para “Café jacu: direto das fezes de um pássaro

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  2. Tudo que é novidade causa estranheza, repulsa e, às vezes, até indignação na maioria das pessoas, como já deu para perceber. Entretanto, sabemos que é só no início, pelo menos para a maioria. Se pararmos para pensar, poderemos imaginar, dentre os milhares de produtos que se come hoje em dia, quantos não causaram todo tipo de reprovação. Eu, por exemplo, não como ostra de jeito nenhum. E não é por questões regionais, não, pois sou paulistana, frequentava a praia regularmente, meu marido e meus filhos sempre comeram, mas acho um nôjo. Creio que esse café deve ser bom, pois é natureza pura! Uma pena não podermos conhecer o seu processamento, mas o fato passar pelas fezes de um animal não quer dizer nada. Cá para nós, alguem já pensou como são processados alguns alimentos que consumimos todos os dias? Por exemplo (só para relaxar) o pão? Será que o padeiro lava as mãos depois de ir ao banheiro? Será que, depois de passar a mão pelo suor que escorre de seu rosto, ele lava? Bem, essas são algumas das perguntas que eu já me fiz e por isso eu mesma faço meu pão. Mas sabemos que existe inúmeras situações duvidosas, quanto a higiene, que não podemos evitar e quanto a isso podemos ficar com as palavras de JESUS: “AINDA NÃO COMPREENDEIS QUE TUDO O QUE ENTRA PELA BOCA VAI PARA O ESTÔMAGO E É LANÇADO FORA?” Sim, JESUS estava dizendo a respeito de uma contaminação espiritual, eu sei, mas estas palavras servem para a matéria, tambem. Tenho certeza disso. Até porque, ELE tambem disse: “E ESTES SINAIS SEGUIRÃO AOS QUE CREREM: EM MEU NOME EXPULSARÃO DEMÔNIOS; FALARÃO NOVAS LÍNGUAS, PEGARÃO EM SERPENTES, E QUANDO BEBEREM ALGUMA COISA MORTÍFERA, NÃO LHES FARÁ DANO ALGUM; IMPORÃO AS MÃOS SOBRE OS ENFERMOS, E OS CURARÃO.” É apenas uma questão de gosto.

  3. Shalon Adonai! Na verdade Jesus não precisa desse café. a outra verdade é que tais descobertas mostram a desgraça que vive os mais necessitados. O que temos são muitos ganhadores e atravessadores muito dinheiro com o café popular, cultivado e vendido com todas as suas cacarcterísticas de um “BOM CAFÉ”, por isso o homem será o real e fiel pagador dessas aventuras irracionais e contrárias a Lei de Deus. OREMOS por um café maravilhoso que a terra produz. ALELUIA.

  4. Jacu e a gente que vai tomar este café…
    Tanto café bom neste Brasil, porque tomar um café que já foi alimento de um pássaro.
    Eu adoro café, mas tomar um café deste é demais, é preciso coragem.

    • e o pior é que ele é sucesso na europa… uma amiga minha que mora na alemanha foi a primeira a me falar deste café…
      ela disse: “carlinhos, eu nunca pensei que ia pagar pra comer cocô!”… e eu ri, né, fazer o quê?

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