Galeria

Realidade ou ficção

Não é de se duvidar que em poucos dias a tragédia na escola de Realengo, no Rio de Janeiro, vire um game de sucesso na internet. Foi assim no caso do bancário que atropelou e feriu 17 ciclistas em Porto Alegre, em fevereiro deste ano, e na fuga de centenas de traficantes para o Morro do Alemão, durante operação da polícia do Rio de Janeiro, em novembro do ano passado. Em ambos os casos, a realidade virou fantasia e os internautas puderam viver momentos tristes como protagonistas. No Rio, na pele de um policial, o jogador podia matar os bandidos que corriam por uma estrada de terra. Na capital gaúcha, o objetivo era atropelar o máximo possível de ciclistas.

Christopher J. Ferguson, professor de psicologia da Universidade Internacional Texas A&M (nos Estados Unidos) e especialista em games violentos, afirma que jogos como esses são de mau gosto e moralmente censuráveis. “Esses jogos tratam as tragédias da vida real de forma imatura e moralmente degradante, e portanto são condenáveis”, explica. Apesar disso, o pesquisador lembra que não existem evidências de que as pessoas deixem de se importar ou tratem com naturalidade esses tipos de atos por causa dos games. “Tampouco eu diria que os jogadores vão achar que os ocorridos foram
positivos ou que devem ser repetidos”, completa.

O jogo “Fuga da Vila Cruzeiro”, criado menos de 4 dias após a invasão da polícia no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, teve mais de 100 mil acessos em menos de 48 horas. Segundo Ferguson, o fato desses jogos oportunistas lançados na internet se tornarem populares não é surpreendente.

“Só por serem polêmicos, esses jogos já geram interesse nas pessoas”, diz o especialista, que também ressalta a atração do ser humano pela violência. “Somos uma espécie agressiva, principalmente os homens. Somos atraídos por imagens violentas, que refletem nossos interesses internos.”

O publicitário baiano Neca Boullosa, de 36 anos, sócio da Pindorama Games e criador do jogo sobre a fuga carioca, afirma que a proposta do game era gerar discussão sobre aquele momento, dando ao internauta a oportunidade de decidir o que fazer: deixar os traficantes fugir ou matá-los. “Qualquer obra pode banalizar a violência se trata o tema sem o devido respeito, mas no caso do ‘Fuga da Vila Cruzeiro’ funcionou realmente como uma discussão para o problema.

Muita gente nos deu retorno dizendo que antes do game achava correto que a PM matasse os traficantes, mas que depois, jogando, viu que seria apenas uma carnificina sem fim”, diz.

Em alguns casos, a criação de jogos pós-tragédias é a forma encontrada pelos jovens para se expressar, confirma Luciana Ruffo, psicóloga do Núcleo de Pesquisas da Psicologia em Informática da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. “Eles têm a tendência de escolher um tema que está na mídia para chamar ainda mais atenção sobre o assunto. Mesmo que essa forma não seja a mais indicada, como nesses games”, diz.

O “Legítima Defesa”, game em referência ao atropelamento de ciclistas em Porto Alegre, foi desenvolvido para criticar o comportamento do motorista, segundo seu criador, Wallace Morais. “Surgiu como qualquer outra ideia de protesto.

Algumas pessoas criam cartazes, outras fazem documentários e eu, como game designer, tenho habilidade de criar jogos”, explica. Aos internautas que discordassem da proposta, Wallace oferecia a possibilidade de assinar uma petição pedindo que o atropelamento fosse considerado crime pela Justiça. “Eu esperava conseguir apoio e mais assinaturas para a petição em repúdio ao atropelamento”, lembra o criador. O game teve cerca de 26 mil acessos diretos em 1 dia.

Quem pensa que o caso da escola de Realengo é muito delicado para virar jogo, já que se trata da morte de crianças, está enganado. A mais recente polêmica em torno dos games violentos foi justamente o surgimento do jogo “School Shooter: North American Tour 2012” (“Atirador Escolar: Tour Norte-americano 2012”). No cenário de uma escola, ganha quem matar o maior número de alunos, professores e funcionários.

O criador se inspirou nas armas utilizadas pelos jovens Eric Harris e Dylan Klebold, que mataram 13 pessoas numa escola em Columbine, nos Estados Unidos, em 1999. Jaime Lombe, responsável pelo game, declarou que não se inspirou no caso, mas apenas nos modelos de armas. O jogo, lançado em fevereiro, foi retirado do ar 1 mês depois.

Que as tragédias da vida real são reproduzidas na ficção é fato. Mas ainda não foi possível determinar até que ponto os jogos violentos são responsáveis pelo comportamento agressivo das pessoas. De acordo com a psicóloga Luciana Ruffo, existem muitas teses a respeito, mas até agora não foi estabelecida uma relação direta entre os games e a violência.

Wellington Menezes de Oliveira, o atirador de realengo, adorava jogos violentos, mas segundo especialistas isso não teria contribuído para o massacre. “É certo que pessoas que já têm algum desvio de personalidade se interessam mais por jogos violentos, mas não podemos afirmar que os jogos influenciam pessoas a tomarem atitudes violentas”, diz Luciana. Segundo a pesquisadora, mais de 99% dos jogadores têm noção de que o game é virtual e que não podem reproduzir esse cenário na vida real.

Os especialistas concordam que outros fatores como o relacionamento familiar e o comportamento na escola são mais importantes na formação do caráter agressivo ou não dos jovens. “Tanto o assassino de Realengo quanto os jovens de Columbine tinham um histórico forte de bullying. Para entender o que eles fizeram, conta mais essa situação do que a informação de que eles jogavam games considerados violentos”, relaciona Luciana.

Para Lynn Rosalina Gama Alves, doutora em Educação e Comunicação pela Universidade Federal da Bahia e autora do livro “Game Over: Jogos Eletrônicos e Violência”, o fenômeno da violência é muito complexo para ser analisado apenas na lógica de causa e efeito, pois uma pessoa nunca sairá matando outras apenas por conta de um jogo.

“Não sou a favor da proibição dos jogos, pois os valores são diferentes entre as famílias, mas, sim, da classificação indicativa do Ministério da Justiça e um maior cuidado por parte dos pais, a quem cabe definir o que deve ou não ser visto pelos filhos”, explica.

Veja mais notícias na Folha Universal

Anúncios

Uma resposta para “Realidade ou ficção

  1. Olá.
    Seu blog é muito bom,parabéns
    Esse post foi divulgado na Teia e seu link foi colocado entre nossos parceiros.
    Até mais amigos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s