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Heróis de valor

ACAMPADOS: Em frente à Assembléia Legislativa do Rio, bombeiro espera por negociação (Foto:Ag. O Dia)

publicado em 12/06/2011 às 00h00.

Inconformados com o pior salário do Brasil, bombeiros do Rio de Janeiro fazem manifestação, entram em confronto com a polícia e são presos. No resto do País, eclodem outras reivindicações

Gisele Brito, Talita Boros, Raquel Maldonado, Vanessa Sendra e Maurício Tambasco

redacao@folhauniversal.com.br

Há quase 2 meses, os bombeiros do Rio de Janeiro pressionam o Governo por aumento e reconhecimento. Com o pior salário da categoria no Brasil, profissionais acostumados a salvar vidas e enfrentar situações de risco passaram semanas tentando negociar uma valorização merecida. Não conseguiram.

A insatisfação crescente culminou em uma decisão extrema no  sábado (4). Durante uma manifestação inicialmente pacífica, centenas de bombeiros indignados ao verem os portões do quartel principal da corporação fechados, decidiram ocupar o prédio para tentar forçar o diálogo. Arrombaram as portas, danificaram viaturas e estenderam faixas pedindo “socorro”.

O governador Sérgio Cabral não hesitou frente ao que considerou um desrespeito à hierarquia e dinamitou o diálogo, ordenando que a Tropa de Choque e o Batalhão de Operações Especiais (Bope) avançassem contra seus colegas. Com metralhadoras, escudos e bombas, os soldados da Polícia Militar enfrentaram os bombeiros, que não ofereceram resistência. O saldo final foi de 439 bombeiros presos, familiares desesperados e mais revolta por parte dos manifestantes. Cabral chamou os envolvidos de “vândalos” e “irresponsáveis”, como se jogasse gasolina no incêndio. Desta vez, sem bombeiros para apagar.

PRESOS: Bombeiros são rendidos pela polícia carioca depois de confronto no quartel (Foto: Ag.O Dia)

A repressão ao movimento, acompanhada da troca no comando, com a substituição do coronel Pedro Machado pelo coronel Sérgio Simões, fez com que a crise ardesse ainda mais. Para desespero dos familiares e colegas dos bombeiros detidos, que agora, além de valorização, cobram anistia para todos. Desde o último dia 5, eles estão acampados em frente à Assembleia Legislativa do Rio. “A única arma que sei que meu filho tem é uma maca do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), na qual ele transporta pacientes para os hospitais”, resume Juçara França Pereira, de 52 anos, mãe de João Guilherme, um cabo socorrista de 21 anos. “Considero uma injustiça o que foi feito pelo governador. Eles não são vândalos, são heróis que salvam vidas. Meu filho é concursado e agora está preso e não pode salvar vida alguma.”

Juçara França Freire, de 52 anos, mãe de um cabo socorrista (Foto: José Célio)

Até o fechamento desta edição, o pedido de liberdade para os 439 bombeiros, feito pelo deputado federal Fernando Francischini (PSDB/PR) por meio de habeas-corpus (mecanismo jurídico que permitiria a libertação imediata de todos) no Superior Tribunal de Justiça (STJ), não havia sido analisado pelo órgão. O STJ informou que o desembargador Haroldo Rodrigues, da Sexta Turma do STJ, solicitou ao governador Sérgio Cabral  informações sobre as prisões dos militares para então dar seu parecer. Segundo o órgão, as informações do Governo do Estado são necessárias porque o autor do pedido de habeas- corpus não juntou qualquer documento para instruir a decisão. Na Justiça comum, outro pedido de liberdade, dessa vez apenas para o bombeiro Alexandre Magnus Mesquita Novelino, um dos 439 presos, foi negado pela juíza Maria Isabel Pena Pieranti, do Tribunal de Justiça do Rio. De acordo com a magistrada, como militares, os bombeiros seguem normas que não são de sua competência e sim da Auditoria da Justiça Militar do Estado.

Quem está na corporação há mais tempo entende que a crise seria resultado da falta de disposição do Governo em ouvir as reivindicações. “Não deram voz a nossos líderes e chegou a esse ponto de termos mais de 400 colegas encarcerados. Suas famílias também sofrem junto, infelizmente. Mesmo sendo reformado, eu abracei esta causa: a luta é de todos nós”, resume o terceiro-sargento Salles, um militar de 61 anos que conta ter feito vários empréstimos para sobreviver.

O coronel reformado e ex-corregedor da Polícia Militar do Rio, Paulo Ricardo Paúl, um dos líderes de movimentos de reivindicação por aumentos salariais e melhores condições da Polícia Militar, acompanhou os protestos e defende os bombeiros. “Os atos desta natureza devem ser pacíficos, os oficiais devem estar de folga, não podem estar usando uniforme e não devem portar armas. Acompanhei tudo desde o início”, afirma, lembrando do dia em que o quartel foi ocupado. “Eram quase 4 mil bombeiros. Éramos muitos, mas, na medida do possível, conseguimos fazer um ato pacífico. Não houve baderna. O Quartel Central estava fechado, o que não é certo. Os bombeiros tinham o direito de entrar lá. Eles pediram para falar com o comandante-geral, para negociar, mas ninguém saiu. Eles tiveram que arrombar, entraram e continuaram pacíficos”, diz Paúl, que foi preso no dia por supostamente ter invadido uma área isolada, o que ele nega. Apesar do desfecho do dia do protesto, Paúl vê com otimismo a mudança no comando. “O novo comandante Sérgio Simões está dizendo que quer dialogar. Isso já é um avanço, pois o outro nem isso fazia, mas isso não basta. Ele precisa ser pragmático, ou seja, ouvir os bombeiros e conseguir o que eles querem de forma prática e rápida”, afirma.

Em sua primeira entrevista coletiva em meio à crise, Simões afirmou que “a proposta é de conciliação, de entendimento” e falou em “solidariedade, cooperação, de respeito mútuo como sempre houve na corporação”. É o que esperam bombeiros como o cabo Marcelo de Lacerda Mendonça, que passou 13 dos seus 32 anos de vida na corporação. Guarda-vidas em Copacabana, ele defende que o principal a ser considerado é o aumento salarial. “Recebemos o pior salário do País. Se eu entrar hoje, a primeira promoção vai demorar 8 anos, provavelmente recebendo este valor inicial por todos estes anos”, argumenta. “Tenho uma filha recém-nascida, só com o consumo de fraldas, estaria perdido. Fora as contas básicas, como luz, alimentação, etc. Vou ter que pagar também a creche para a minha filha. Somando tudo, percebe-se como está defasado o meu salário. É preciso falar para que todos percebam as condições em que trabalhamos e que vivemos hoje”, resume.

Fonte: Folha Universal

Veja o vídeo da manifestação dos bombeiros

Veja também o depoimento da professora Amanda Gurgel

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2 Respostas para “Heróis de valor

  1. Pingback: Depoimento da Professora Amanda Gurgel | kuryusthelord

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